Contos

Memórias de Infância

As férias chegaram!!!
Chegada da escola, mala, livros, cadernos, etc., largados num canto!
-Mãe, estamos em férias, quando vamos para Morretes ?
- As aulas nem terminaram e você já esta pensando em viajar?
- Claro, estou com saudades de Morretes, de meus avós, de meus primos!
- Só poderemos ir na próxima Segunda-feira.
- Segunda feira chegou, mês de julho, frio, geada.
- Não tem importância! Em Morretes nos espera o calor!
Vamos para a estação ferroviária. Às sete horas da manhã, a paisagem até Roça Nova era de uma brancura imensa! Mas não conseguia cortar a alegria de estarmos no trem a caminho das férias tão esperadas.
Lá do alto, desde o Marumbi até Porto de Cima já víamos Morretes, seu casario e a chaminé do Engenho Central. Nosso ponto de chegada.
Nove horas e quinze minutos, apito longo da Maria Fumaça e a chegada na estação de Morretes!
Descendo do trem já subíamos na charrete e seguíamos para a casa dos avós (Cândida e Domingos) e em seguida para a casa da Nona Luiza e Nono Fante, no Central.
Lá estavam a nossa espera os avós, tios, tias e principalmente os primos.
Iniciávamos a peregrinação!
Primeiro a visita ao engenho (em frente a casa de meu avô ), para tomar "garapa", saída diretamente da moenda, numa caneca adaptada de lata de azeite "Salada ". Lá encontramos o Nono Fante, gerente do engenho e o Nono Domingos, encarregado do processo de fabricação da cachaça. Satisfeita a vontade de saborear a "garapa", seguimos em direção à casa do Tio "Tonicão", que a esta época residia num dos sobrados dos Malucelli, onde exercia a profissão de celeiro.
No caminho, o "chalé "do Tio Sebastião, com sua roda d'água. Preguiçosa e em seguida a casa da escola, onde moravam tio Olindo e Tia Eutália e mais adiante a casa do Tio Antoninho e Tia Meneguina, irmã mais velha de minha mãe.
Finalmente chegamos à casa do Tio " Tonicão ", irmão de papai.
A vista dos dois sobrados, sempre me impressionou. Dois sóbrios casarões, na minha idade, ganhando os céus, como que reverenciando o Marumbi. O da esquerda moradia de Tia Maria, irmã de minha Vó paterna, e vários filhos. Tia Maria era viúva de João Malucelli. O da direita, já dissemos acima, moradia de Tio "Tonicão ". Era fascinante adentrar naquele sobrado e abraçar meus tios, tomar o café de tia Maria e percorrer os cômodos daquele casarão.
Tudo me assombrava. Lá estava a imensa cozinha com sua pia de pedra bruta e sua enorme torneira de cobre, que soubemos foi parar em São Paulo, a sala de entrada e o que me chamava muita atenção, o cômodo transformado em capela da família, com seu patrono Santo Antonio.
Hoje a capela esta situada no núcleo urbano da cidade. Subia as escadas e lá estavam os vários quartos que dominavam o andar superior, que tinham sido ocupados pelos irmãos e respectivas esposas, descendentes de Giovani e Margarita Gobo Malucelli.
Minha cabeça de criança, criava imagens e suposições de como seriam a vida e os afazeres diários daquelas pessoas. Só com o tempo e as histórias que minha mãe contava fui saber como transcorria a vida familiar do casarão. Nasceram os descendentes. Irmãos e primos se criavam juntos. Sem distinção. Era necessário por ordem na casa ! Assim distribui-se o serviço doméstico. Uma nora se encarregava da casa, outra da cozinha, outra da roupa, que era lavada no "lavador ", uma coberta de zinco na beira do valo que passava em frente e que adiante servia de força motriz para as máquinas do engenho, outra das crianças, que eram tratadas com igualdade, e toda a semana havia o revezamento das tarefas. A igualdade de tratamento fez com que todas as crianças se considerassem irmãs, o que deu a elas uma amizade perene permanecendo pelo menos até a segunda geração dos descendentes de Giovani e Margarita.
Atrás dos sobrados permanecia, intacta, a estrutura física do engenho velho, com sua chaminé querendo alcançar as nuvens, e como que esperando as máquinas, para voltar a produzir cachaça e " açúcar preto ". E ainda, logo ali, corria o querido Nhundiaquara, nos esperando para um farto banho de rio.

Morretes, 16 de julho de 2004.

INFORMAÇÕES DO AUTOR:

ALUIZIO ESTANISLAU CHEROBIM
Filiação: JOSÉ CHEROBIM e ANGELINA MALUCELLI CHEROBIM
Data de Nascimento: 13- XI – 1929
Local: CURITIBA
Profissão: CIRURGIÃO - DENTISTA
ATOR – DIRETOR TEATRAL – ILUMINADOR

Autor: ALUÍZIO ESTANISLAU CHEROBIM

  • Casario Colonial
  • Sobrado da Tia Maria, irmã de minha Vó paterna, e vários filhos
  • Sobrado onde movava o Tio
  • O companheiro Aluizio  as margens do Rio Nhundiaquara
  • Lá do alto, desde o Marumbi até Porto de Cima já víamos Morretes, seu casario  e a chaminé do Engenho Central. Nosso ponto de chegada
  • O companheiro Aluizio  no local do antigo engenho.
  • Capela de Santo Antonio
  • O lado jovem do Companheiro Aluízio Estanislau Cherobim