Contos

A Compra de um Milagre

Joãozinho tinha oito anos e era caçador de caranguejo na toca e tirador de ostras e mariscos do mangue.

Nascido na Ilha de Iticanga, filho de pescador, acabara de voltar da pescaria de linha do bagre jundiá e jogou a fieira com onze bagres dentro do tanque de roupas de sua casa e sem querer ouviu a conversa de seus pais. Seu pai dizia:

- Maria do Socorro, o Toninho precisa operar o coração, o médico do posto disse que ele tem uma doença que nem sei o nome, espera está escrito aqui: tetralogia de fallote e só um milagre salva o nosso filho.

Joãozinho pulou a janela do seu quarto e sem fazer barulho, para não acordar Toninho que dormia profundamente, pegou embaixo de sua cama uma latinha de refrigerante que usava como cofrinho. Tirou todas as suas moedas e coloco-as no bolso de sua bermuda.

Virou seu boné ao contrário e saiu remando sua canoa em direção ao furado rumo a Guaraqueçaba.

Lá chegando amarrou sua canoa no trapiche do antigo mercado e foi direto para farmácia do Sr. Divo e colocando as moedas no balcão perguntou:

- Moço, esse dinheiro da pra comprar um milagre pro meu irmãozinho Toninho, só um milagre salva ele. Ao que o Sr. Divo respondeu:

- Rapaz para vender um milagre precisa da receita do médico e quase todos os milagres são muito caros e você só tem R$ 6,35.

Um senhor ao lado se interessou pela conversa e perguntou ao menino onde ele morava e imediatamente entabularam uma conversa e ao final de alguns minutos Joãozinho embarcava na Marajó de 19 pés do Dr. Dante com destino a Ilha de Iticanga.

Dr. Dante era médico cardiologista e sempre carregava sua maleta e assim começou a compra de um milagre.

Chegando à sua casa, Joãozinho explicou para seu pai – Sr. Germeniano, que havia ido à farmácia do Sr. Divo para comprar um milagre e que trouxera o Doutor. O Dr. Dante prontamente se apresentou e disse que gostaria de examinar a criança que estava doente.

Pai, mãe e irmão acompanharam o Dr. Dante até o quarto onde dormia o Toninho, agora com quatro anos de idade e com uma carinha de anjinho.

Maria do Socorro estava com os olhos arregalados e em seu semblante transparecia uma esperança jamais vista antes.

Após examinar a criança o Dr. Dante confirmou o diagnóstico do médico do posto, Toninho tinha uma tetralogia fallote e seria necessária uma intervenção cirúrgica com a máxima urgência. Sem pestanejar Dr. Dante foi logo dizendo:

- Sr.Germeniano peça para sua esposa arrumar a mala dela e da criança, vou levá-los para São Paulo e seu filho será operado na Unicor - Hospital onde trabalho e não se preocupem com hospedagem eles ficarão em minha casa.

- Deus lhe pague. Foram as únicas palavras que Germeniano conseguiu sussurrar.

Foi assim que Joãozinho e seu pai acenaram para a lancha com destino ao furado que levava sua mãe e seu irmão e ficaram somente com uma grande esperança no coração.

Após 48 dias, Dr. Dante voltou a Ilha de Iticanga trazendo Maria do Socorro e Toninho prontamente recuperado, vez que a cirurgia havia sido um sucesso.

Alguns anos depois, Joãozinho, com 16 anos, e Toninho, com 12 anos, estavam pescando no canal quando avistaram um senhor de branco pescando e logo reconheceram o Dr. Milagre.

No dia seguinte os irmãos entraram em um igarapé para verificar o cerco de robalos. Então viram que o Dr. Milagre pescava ali próximo.

Joãozinho pediu silêncio e foi direto ao cerco, com seu passagua retirou um robalo – de aproximadamente 4 quilos, sem fazer qualquer ruído dirigiu-se a lancha do Dr. Milagre e já próximo mergulhou e fisgou o peixe no anzol do Doutor.

Doutor Milagre deu uma fisgada e retirou o peixe da água e comemorou bastante aquele baita peixão.

Em seguida foi à vez de Toninho fazer à mesma operação. E assim, os irmãos se revezaram por oito vezes. Só que na última vez o peixe levava, fisgado no anzol, um recado mal grafado em um papelão: MILAGRE SE PAGA COM MILAGRE.

Dr. Milagre de uma inteligência brilhante, cultura incrível e bondade incalculável, ficou encucado com aquele bilhete e não entendeu nada até os dois irmãos passarem por ele acenando em sua canoa em direção a Ilha de Iticanga e quando a canoa sumiu na curva a pescaria acabou vez que parou de beliscar totalmente.

Por: Velho Ballan – escritor e produtor da cachaça de cataia.

Este conto de autoria de Oriel Ballan que escreve para a Coluna Velho Ballan – Causos & Histórias do Jornal Pesca Brasil que depois de muitas edições passou a chamar-se Jornal do Sartorato.

Autor: Oriel Ballan

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